sábado, 25 de abril de 2009

O Guardador de Rebanhos

IX

Sou guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.


Pensar uma flor é vê-la e cheira-la
E Comer um fruto é saber-lhe o sentido.


Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de goza-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado no realidade
Sei a verdade e sou feliz.



Sempre reflito sobre alguns versos isolados de O Guardador de Rebanhos. Essa é, de longe, uma das minhas obras preferidas em literatura portuguesa - pela contundência, pela criatividade, pela coragem. Quero-me sempre um guardador de rebanhos. O rebanho é onde habita os limites da imaginação, a existência. Não há limites para o rebanho do homem livre. A força material potencialmente libertadora e revolucionária da imaginação e do empirismo é responsável pela própria existência. É bom ressaltar: só se vive na imaginação; não há vida longe dela, há trevas; não há realidade, há ilusão; não há liberdade, se é escravo.
Não podemos impor limites à imaginação, não podemos castrá-la, não podemos aprisioná-la. Limitada, a imaginação morre como animal selvagem que um dia se vê enjaulado. Aí mora, precisamente, o perigo para o guardador de rebanhos: com facilidade ele pode se ver amo (ainda que se acreditando livre) da moralidade, da religião, da mídia, de todo o aparato de que dispõe a classe dominante para o controle da boiada.